Crônicas de Vitórinha: A Viagem do Peregrino ao Centro

on Tuesday, March 22, 2011
Era tão normal acordar pela manhã e tomar café na padaria próxima à sua casa. Não teria nenhum problema se não encontrasse no comércio inúmeros estudantes que inundavam o ambiente em alvo branco e intenso azul. O ensino médio, sem dúvida, fora um fardo durante toda a sua vida. Enfrentou aquilo, mas hoje já o tinha superado.
Agora, o outro desafio era a vida no, antes chamado, 3° grau. Tão comum. Tão desanimador. Pensar que teria muito pela frente na cidade onde nasceu e viu sua mãe se tornar uma dedicada profissional e seu pai...não viu seu pai. Desde que se entende por gente.
Levou mais tempo do que imaginava para realizar os afazeres matutinos. Saiu em disparada pela rua em direção à avenida que beirava o mar, poluído, em termos, pelos resíduos que volta e meia se depositavam pelo vento provindos da gigantesca caixa de minério.
A condução que adentrou, sabia bem, era a mais rápida em direção ao Centro. Não o visitaria para aulas ou coisas do tipo. Tinha um objetivo esta manhã e estava focado então.
Saltou próximo à uma praça pouco movimentada. O relógio nunca marcava hora nenhuma e ele não entendia o porquê daquilo ali. Não deu muita importância e se dirigiu às escadarias que décadas antes serviu de palco para famosos acontecimentos de heroínas capixabas. Hoje cheirava a urina, estava pixado e, ele não deixou de notar, havia um gato preto que se esgueirava no canto da escadaria fitando-o. Sentiu um frio na espinha, mas continuou seu trajeto.
Algo estava diferente. Sentia alguém seguí-lo. Aquela capital sempre tinha desses mistérios no Centro. E, ao subir as escadas, sentiu algo que nunca sentiu antes. Não era possível descrever. Era um verdadeiro fluxo psicofísico. Estava inerte e ao mesmo tempo enérgico. Suspenso no nada cintilante. Um vento quente passou pelo seu rosto. Despois um baque.
O que viu antes de se localizar novamente nas escadarias foi um vulto negro, que desapareceu junto com o gato preto. Mas não teve medo. Tudo estava branco.
Os olhos se acostumaram à claridade e ele olhou em volta. A mesma escadaria. O mesmo ar. O mesmo corpo. Mas...um diferente evento. Uma mulher com expressão rígida, trajando roupas de outras eras, subia as escadas às pressas acompanhada de mais algumas companheiras. Passaram por ele e nem sequer notá-lo. Os ônibus e carros modernos foram substituídos por carros de época. Ele sorriu e fechou os olhos. Havia conseguido o que foi buscar ali.

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